Antônio Carlos Magalhães, João Durval Carneiro,
Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Jorge Amado estavam
entre os presentes.
Ali, no terreiro do Gantois — ou Ilê Iaomim Axé
Iamassê —, comemorava-se o aniversário de 90 anos de uma senhora que, ao longo
de sua vida, havia conquistado o respeito e garantido a influência na sociedade baiana do século 20: Maria
Escolástica da Conceição Nazaré, mais conhecida como Mãe Menininha do Gantois
(1894-1986). Nesta quinta-feira (13/8) completam-se 40 anos da sua morte.
"Mãe Menininha era uma voz de consenso, era a voz
que todos ouviam para saber como as coisas deviam ser direcionadas",
contextualiza o sociólogo, antropólogo e babalorixá Rodney William Eugênio,
doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
"Ela era a ialorixá das ialorixás, aquela diante
de quem todas as mais velhas da Bahia se curvavam por tudo o que ela
representava, pela própria condição de conciliadora."
Ialorixá é o nome correto para o popular "mãe
de santo". Filha única de Maria da Glória e Joaquim Assunção,
Menininha se tornou a terceira ialorixá da história do Gantois, posto que
ocupou por 64 anos — um recorde. Ela assumiu o cargo, sucedendo sua tia-avó
Pulquéria Maria da Conceição, em fevereiro de 1922, aos 28 anos.
Menininha era bisneta de Maria Júlia da Conceição
Nazareth, fundadora do terreiro do Gantois — criado em 1849. Descendente de
escravizados, sua família era originalmente da Nigéria.
Ela sucedeu Pulquéria em um cenário conturbado do
terreiro, já que a natural sucessora, mãe de Menininha, morreu ainda durante o
período de luto pela morte da então ialorixá.
Tornou-se conhecida como uma das maiores e mais
renomadas ialorixás da história do candomblé", comenta o sacerdote de
umbanda David Dias, pesquisador em ciência da religião na PUC-SP.
"Ela é muito celebrada até hoje, foi mãe de santo
de diversos artistas, políticos. As ialorixás baianas, todas elas, têm uma
história de luta política muito grande. Por meio das relações que elas foram
tecendo com as pessoas das artes e da política, elas também iam garantindo a
sobrevivência do candomblé", contextualiza o historiador Guilherme
Watanabe, pai de santo do terreiro Urubatão da Guia, em São Paulo, e
membro-fundador do Coletivo Navalha.
Foi um percurso de resistência e de alianças, o de
Menininha. Quando ela assumiu o cargo, teve de enfrentar o preconceito e a discriminação às religiões de matriz
africanas.
"Ela atravessou o processo de perseguição",
ressalta Eugênio. "Não à toa, se dizia católica. Ela sabia que se dizer
católica era uma estratégia de sobrevivência."
Devota de Santa Escolástica, de quem emprestava o
nome, frequentou missas até o fim da vida. Foi pioneira também nesse sentido,
garantindo o direito, junto aos religiosos católicos da Bahia, de participar da
igreja vestindo os trajes típicos do candomblé.
Mãe Menininha acabou incorporando um peso
sociopolítico tão importante que, com o passar do tempo, autoridades políticas,
artistas e esportistas costumavam procurá-la antes de tomar grandes decisões.
Queriam seus conselhos, queriam sua proteção. Sabiam da influência dela.
Sua casa foi frequentada por músicos como Gilberto
Gil, atletas como Pelé, Roberto Dinamite e Djalma Santos, políticos como Luiz
Inácio Lula da Silva, Paulo Maluf, Adhemar de Barros, Getúlio Vargas, João
Goulart e João Baptista Figueiredo, além dos nomes já citados no início desta
reportagem.
Aceitação do candomblé
Em meio a articulações, à medida que reforçava seu
papel de respeito e sua posição de carisma, ela teve um papel importante na
inserção da religião do candomblé na sociedade brasileira.
"Assumindo a direção do Gantois muito jovem, aos
28 anos, Mãe Menininha […] foi mãe, mulher, líder religiosa, tornando-se uma
verdadeira instituição do Brasil", afirma sua biografia oficial, divulgada
pela administração do terreiro.
"Deixou ensinamentos de grande valia para a
perpetuação da religiosidade de matriz africana na Bahia, com uma forte
contribuição ao professar a fé, dando lições de poder, humildade e
respeito."
"A sua história se confunde com a própria
história do candomblé no Brasil, pelo fato de ser oriunda de família de
linhagem nobre africana, uma das responsáveis pela implantação do candomblé na
Bahia", prossegue a nota biográfica.
Quando ela assumiu o posto, já era casada com o
advogado Álvaro MacDowell de Oliveira, com quem teve duas filhas, Cleusa — que
a sucedeu no comando do terreiro — e Carmem, que morreu em 2025 aos 98 anos.
Permaneceu casada, mas decidiu que o marido não
poderia morar no Gantois. O advogado sempre foi um apoiador do candomblé e,
mesmo sem nunca ocupar um cargo religioso, atuou nas lutas empreendidas por
Menininha.
Isso principalmente por conta da Lei de Jogos e
Costumes, de 1930. A legislação passou a enquadrar o as práticas religiosas
africanas e foi, durante muito tempo, a pedra no sapato de Menininha. A lei
acabava fazendo com que batidas policiais ocorressem em terreiros, apreendendo
objetos e, em alguns casos, até mesmo agredindo sacerdotes e participantes.
A situação só melhorou em 1976, quando o então
governador baiano Roberto Santos sancionou decreto liberando as casas de
candomblé de seguirem o mesmo licenciamento previsto pela legislação de
"jogos, costumes e diversões públicas". A pressão do Gantois,
finalmente, surtira efeito.
Eugênio acredita que a chave para o sucesso foi o fato
de Menininha promover "o diálogo interreligioso". "Ela se dizia
católica, assumia essa dupla pertença, mas isso tem de ser compreendido dentro
de um mundo maior. O candomblé, para ela, era a vivência, a cultura, o ethos… E
ela viveu isso no sentido mais amplo", analisa. "Ao mesmo tempo,
circulava nos bastidores da política."
"Ela não gosta de aparecer, mas sabia o momento
certo de fazer a coisa certa, com toda a discrição", acrescenta ele.
"Soube encontrar aliados no poder para manter os benefícios para sua
comunidade, isso por força do seu carisma, seu poder de encantamento."
Mulheres sacerdotisas
O bem-sucedido papel de Menininha à frente do terreiro
ilustra o fato de que, no Brasil, é comum que mulheres assumam papéis de
comando em religiões de matriz africana.
Segundo o sociólogo Eugênio, isso não é inerente
desses segmentos, mas uma característica pontual dessas manifestações que
passaram a ocorrer "na diáspora", ou seja, por africanos na América e
seus descendentes.
"A história do Gantois é uma história de mulheres
valorosas, muito fortes, que de alguma forma dialoga com o processo de
escravidão e do que foi a presença dessas mulheres, a força dessas mulheres no
processo de escravidão", ressalta o sociólogo.
Para começar, como lembra o pesquisador, essas
mulheres sempre tiveram — e têm — outras atividades profissionais além do
terreiro em si. "Há uma ligação direta com o processo de ganho [que
ocorria na escravidão]", pontua. Mãe Menininha trabalhou como quituteira e
costureira ao longo da vida. "Modista e fina doceira", como diz sua
sinopse biográfica oficial.
"Elas sempre tiveram outras atividades associadas
à atividade principal, o terreiro, e uma coisa nunca impediu a outra. As coisas
dialogam tranquilamente", diz Eugênio.
"Mãe Menininha tinha essa coisa do ganho e acho
que de certa forma as mulheres do terreiro da Bahia, do ganho, são as grandes
empreendedoras do Brasil."
Mas o ponto que explica porque muitas mulheres
acabaram se tornando sacerdotisas de religiões afro-brasileiras está na própria
lógica da organização do trabalho durante o período escravocrata.
"Muitas mulheres assumiam tarefas na cozinha,
próximo à casa grande, e muitas tinham o benefício da alforria antes",
esclarece. Essa rotina teria dado a elas mais condições para assumirem o
serviço religioso.
Na cultura popular
Como não podia deixar de ser, dado extenso rol de
amizades com artistas, Mãe Meninha foi homenageada pela cultura popular. Em
1972, Dorival Caymmi lançou Oração de Mãe Menininha, depois regravada em vozes
como de Maria Bethânia e Gal Costa.
"A beleza do mundo, hein? Tá no Gantois. E a mão
da doçura, hein? Tá no Gantois. O consolo da gente, hein? Tá no Gantois",
dizem os versos.
Bahia, Minha Preta, composição feita em 1993 por
Caetano Veloso, conhecida na voz de Gal Costa, também traz referências a
Menininha do Gantois.
Em 1976, ela foi homenageada no carnaval carioca com o
enredo da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel — de autoria de
Arlindo Rodrigues, o samba foi interpretado por Elza Soares. Cinco anos atrás,
foi a vez da paulistana Vai-Vai homenagear Mãe Menininha.
Jorge Amado, na obra Bahia de Todos-os-Santos,
escreveu que "Mãe Menininha está acima de toda e qualquer divergência de
ordem política, econômica ou religiosa".
"É a ialorixá de todo o povo da Bahia, sua mão se
estende protetora sobre a cidade. Não se trata nem de misticismo nem de
folclore e sim de uma realidade do mistério baiano", registrou.
O apelido Menininha
Não há um consenso sobre a explicação do apelido da
famosa ialorixá. "Nem mesmo Mãe Menininha sabia dizer quando este apelido
lhe foi dado. Dizia ela que este nome a acompanhava desde criança e assim era
chamada por sua mãe, tia e avó", comenta o pesquisador David Dias.
Se já era uma apelido anterior ao cargo, o mesmo
acabou reforçado pelo fato de ela ter assumido o terreiro tão jovem — uma
"menininha" em um contexto em que as sacerdotisas costumam ser
anciãs.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/czrjyv10xgpo.
Acesso em 13/08/2026.
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