Apesar do abalo
fortíssimo no vizinho ao norte, o Brasil foi quase totalmente poupado, com
apenas leves tremores tendo sido sentidos em cidades como Manaus ou
Belém. Dois
brasileiros estão entre as vítimas.
O Brasil parece ser, em
geral, poupado de terremotos. Mas a ciência mostra que não é bem assim.
O que acontece é que,
como o país está localizado no meio de uma placa tectônica, ou seja, longe das
bordas que estão em constante atrito com outras na crosta terrestre, os
tremores acabam sendo sentidos com menos intensidade no país.
Tecnicamente, o Brasil
está no centro da chamada placa Sul-Americana.
á os países vizinhos ao
Brasil, especialmente os que estão mais próximos à cordilheira dos Andes, têm
em seus territórios bordas de duas placas — e são destes encontros que ocorrem
os terremotos, alguns deles com catastróficas consequências.
Para entender isso é
preciso compreender como os terremotos ocorrem. E isto está diretamente ligado
à constituição da crosta terrestre — a camada externa do planeta é formada por
gigantescas placas rochosas, chamadas de placas tectônicas.
Tensões constantes
"Essa parte mais da
superfície da Terra seria algo semelhante a um casco de tartaruga, com várias
peças se encaixando", compara o geógrafo e historiador Sergio Ribeiro
Santos, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
E elas se movimentam a
velocidades que podem chegar a até 10 centímetros por ano.
São formações imensas. A
placa Sul-Americana, em alguns trechos, pode ter até 200 quilômetros de
espessura.
Há placas que
"carregam" os continentes, outras que estão cobertas por água marinha
e até mesmo as que combinam ambas as superfícies. Professor em um colégio
paulistano e mestre em geografia pela Universidade de São Paulo (USP), o
geógrafo Sergio de Moraes Paulo faz uma analogia com uma casca de ovo para
explicar o que é a crosta terrestre. "Só que uma casca toda fragmentada,
em grandes placas, que são as placas litosféricas, as placas tectônicas",
pontua ele.
"Como a parte de
baixo, o manto, que é como se fosse a clara do ovo, está se mexendo, as placas
também se mexem", explica Paulo.
Segundo o professor,
esse movimento se torna mais notável nas chamadas "áreas de contato"
— ou seja, o limite entre um placa e outra.
O geógrafo Santos
explica que essa movimentação se dá por conta das altas temperaturas do
interior do planeta.
O movimento das placas
faz com que elas estejam constantemente em atrito umas com as outras, como se
buscassem se encaixar em um espaço limitado. Elas se empurram, se raspam e se
chocam. Se a tensão é constante, há momentos em que a energia chega a um nível
em que as rochas se fraturam, se rompem. Mais ou menos como ocorre se pegarmos
uma pedra e, com uma ferramenta bastante sólida, formos apertando-a cada vez
mais — uma hora ela trinca, quebra.
No âmbito de dimensões
gigantescas das placas tectônicas, essa fratura é chamada de falha. Mas a
energia liberada desse movimento é tão grande que acaba fazendo vibrar todo o
solo ao redor. É isso que faz com que ocorram os tremores.
A área onde essas duas
placas colidem é conhecida como limites convergentes.
No meio, a
tranquilidade
"O Brasil está bem
no meio da placa tectônica, e os terremotos acontecem muito mais próximos dos
extremos das placas, nos limites convergentes. Ficamos distantes desses
limites", explica o geógrafo Anderson Andrade, pesquisador no Instituto
Mackenzie.
"Os países vizinhos
ao Brasil, principalmente os mais próximos à cordilheira dos Andes, estão muito
perto desses limites convergentes", acrescenta Andrade.
O que ocorre em países
vizinhos ao Brasil é justamente a localização — onde se tocam as placas
Sul-Americana e a de Nasca, na costa oeste da América do Sul, na região banhada
pelo Oceano Pacífico. "Ali temos um movimento mais intenso e os abalos sísmicos.
Aí ocorrem os terremotos. Esses abalos podem até chegar ao Brasil, mas como
estamos no meio da placa, eles chegam mais fracos", explica Paulo.
Segundo Santos, foi
exatamente a fricção entre essas duas placas tectônicas que deu origem à imensa
cadeia montanhosa chamada de Cordilheira dos Andes.
"Os países andinos
da América do Sul, logo a oeste, estão sobre o contato entre duas grandes
placas tectônicas", sintetiza o engenheiro Antonio Eduardo Giansante,
professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Qualquer movimento
entre ambas causatremores e se for mais intenso, tem-se um terremoto. Muitas
vezes o contato entre essas placas tem uma quantidade grande energia armazenada
e por qualquer variação entre ambas, há liberação dessa energia e reacomodação
entre ambas as placas, terremotos de grande intensidade."
Terremotos
brasileiros
Dados do Instituto de
Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo
(USP) mostram que o Brasil teve cerca de 100 terremotos no século. Nenhum deles
de forte intensidade — na maioria, seus efeitos foram imperceptíveis pela população.
Os terremotos são
medidos pela chamada escala Richter e, via de regra, apenas os que atingem mais
de 7 graus nessa forma de medição causam alguma destruição. O mais grave do
Brasil ocorreu em 1955, quando em algumas localidades do estado do Mato Grosso
foram registrados 6,6 graus nessa escala. Na mesma ocasião, localidades do
Espírito Santo chegaram a registrar 6,3 graus.
Em 1980, houve um
terremoto registrado no Ceará com 5,2 graus na escala Richter. Três anos mais
tarde, os sismógrafos marcaram 5,5 graus no estado do Amazonas.
Neste século, alguns
episódios marcantes também foram percebidos no Brasil. Em 2007, 6,1 graus de
abalo sísmico chegaram a ser percebidos por moradores na divisa entre os
estados do Acre e do Amazonas. No mesmo ano, em Minas Gerais, houve um sismo
registrado de 4,9 graus.
Em abril de 2008 ocorreu
aquela que talvez tenha sido a percepção sísmica de maior repercussão na
história recente do Brasil. Na ocasião, 5,2 graus na escala Richter foram
registrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina.
O caso mais recente foi
em 2018, quando reflexos de um terremoto na Bolívia foram percebidos em
determinadas regiões do Brasil.
Segundo as medições do
Centro de Sismologia da USP, os últimos tremores registrados no território
brasileiro ocorreram em 11 de junho deste ano, quando três pequenos terremotos
ocorreram na região de Tucuruí, no Pará — o maior deles, com 3,5 graus de magnitude.
A repercussão dos
tremores é proporcional à intensidade deles. Em outras palavras, abalos
sísmicos pequenos são muito comuns. "Mas acabamos por ter notícias apenas
daqueles mais intensos, que geram imagens impressionantes", diz o geógrafo
Paulo.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgjxdy1lnn7o.
acesso em: 26/06/2026.
0 Comentários