Agora, o país de pouco
mais de meio milhão de habitantes — população semelhante à de Florianópolis —
se tornou uma das grandes histórias da Copa do Mundo de 2026.
Na noite desta
sexta-feira (26/6), a seleção cabo-verdiana empatou com a Arábia Saudita na
última partida da fase de grupos e garantiu uma classificação inédita para o
mata-mata do Mundial.
A equipe ficou em
segundo lugar no Grupo H e vai enfrentar a Argentina na próxima fase.
A seleção de Cabo Verde,
apelidada de "Tubarões Azuis", disputa seu primeiro Mundial e chamou
a atenção logo na estreia ao arrancar um empate sem gols com a Espanha, atual
campeã da Europa.
Na segunda rodada, outro
resultado heróico contra o tradicionalíssimo Uruguai, um empate em 2 a 2.
Nesta sexta-feira, o
país repetiu o empate em 0 a 0 com a Arábia Saudita e terminou a fase de grupos
sem perder nenhum jogo.
Seu goleiro de 40 anos, Vozinha, virou herói
nacional, emocionou torcedores ao chorar após a partida e se transformou em um
fenômeno das redes sociais.
Mas o interesse
despertado por Cabo Verde vai além do futebol. Localizado a cerca de 600
quilômetros da costa oeste da África, esse pequeno país insular tem uma
história singular: foi um importante entreposto do tráfico transatlântico de
escravizados, possui uma das democracias mais estáveis do continente africano,
não tem rios permanentes nem fontes naturais significativas de água doce e é o
berço da morna, gênero musical eternizado pela cantora Cesária Évora.
O país também é muito
lembrado pela cultura que valoriza a união, o orgulho nacional e a
solidariedade do povo das ilhas e da sua vasta diáspora, características
celebradas pela famosa expressão "Nu sta djunto, Kabu Verdi".
Em crioulo
cabo-verdiano, a frase significa "Estamos juntos, Cabo Verde", e vem
sendo usada pelos torcedores locais — e simpatizantes do futebol ao redor do
mundo — para apoiar o time.
Vejamos algumas
curiosidades sobre Cabo Verde.
1. Aspectos
Geográficos
Com uma superfície total
de 4 mil quilometros quadrados, Cabo Verde é formado por dez ilhas, das quais
nove são habitadas.
Sua única espécie
endêmica de mamífero é o morcego-de-orelhas-cinzentas, que durante muito tempo
dominou o arquipélago sem conviver com outros mamíferos até a chegada dos
primeiros humanos, no século XV.
Após desembarcarem em
1456, segundo registros históricos, os portugueses fundaram Ribeira Grande, na
ilha de Santiago. Hoje, a cidade se chama Cidade Velha e fica a poucos
quilômetros de Praia, a capital e cidade mais populosa do país.
Portugal deu às ilhas o
nome de Cabo Verde em referência ao ponto mais próximo do continente africano:
a península homônima onde hoje está localizada Dakar, capital do Senegal.
O arquipélago se divide
em dois grupos:
Ilhas de Barlavento:
Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal e Boa Vista.
Ilhas de Sotavento:
Maio, Santiago, Fogo e Brava.
Dessas, apenas Santa
Luzia permanece desabitada e constitui uma reserva natural.
2. Foi um importante
entreposto do tráfico de escravizados entre África e América
Por sua posição
estratégica entre a África e a América, Cabo Verde se consolidou, no século
XVI, como um dos principais centros do tráfico transatlântico de escravizados,
atividade que perdurou por mais de 300 anos.
Estima-se que cerca de 3
mil escravizados vindos do continente africano fossem vendidos anualmente em
Cabo Verde com destino à Europa e às Américas.
Alguns permaneceram no
arquipélago, trabalhando nas minas de sal e nas primeiras plantações de algodão
voltadas para Portugal.
A herança da escravidão
marcou profundamente a demografia do país. A população é majoritariamente
mestiça, resultado da mistura entre africanos e europeus — sobretudo
portugueses —, algo confirmado por estudos genéticos.
Embora o idioma oficial
seja o português, os habitantes também falam o crioulo cabo-verdiano, uma
mistura do português com línguas africanas, que possui nove variantes, uma para
cada ilha habitada.
A influência colonial
também se reflete na religião: 72,5% da população é católica, segundo o anuário
The World Factbook, da CIA.
3. Tem apenas 500 mil
habitantes, menos da metade do número de turistas que recebe por ano
A grande distância entre
as ilhas, o território reduzido — menor que um quinto da área de El Salvador, o
menor país da América Latina — e o fato de apenas cerca de 11% da superfície
ser cultivável, em meio a extensas áreas de rocha vulcânica, limitaram o
crescimento populacional de Cabo Verde ao longo dos últimos cinco séculos e
meio.
O Banco Mundial estimou
a população em 524 mil habitantes em 2024.
Isso representa menos da
metade dos 1,2 milhão de turistas que visitaram o arquipélago no mesmo ano,
segundo dados oficiais.
O turismo é, de fato, o
principal motor da economia cabo-verdiana, representando aproximadamente um
quarto do Produto Interno Bruto (PIB), segundo diversas fontes, incluindo o
Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
Os cabo-verdianos que
vivem fora do país também superam os que vivem no arquipélago. O governo
estimou em 2023 uma diáspora de cerca de 2 milhões de pessoas, principalmente
em Portugal e nos Estados Unidos, embora esse número seja debatido por falta de
estudos mais abrangentes.
4. É uma das
democracias mais estáveis da África
Portugal transformou
Cabo Verde de colônia em província ultramarina em 1951, mas a mudança não
satisfez as crescentes aspirações por autonomia dos cabo-verdianos.
Nas décadas de 1950 e
1960, líderes como Amílcar Cabral uniram-se à luta de independência da
Guiné-Bissau em uma guerra sangrenta contra Portugal.
O processo culminou com
a independência de Cabo Verde, em 5 de julho de 1975.
O país viveu sob um
sistema de partido único até 1990, quando surgiu o Movimento para a Democracia
(MPD), abrindo caminho para o multipartidarismo e para as primeiras eleições
democráticas em janeiro de 1991.
Desde então, Cabo Verde
mantém uma vida política pacífica e estável, com alternância de poder e
instituições consolidadas, incluindo presidente eleito, primeiro-ministro,
Assembleia Nacional e Supremo Tribunal de Justiça.
Essa alternância foi
reforçada em 2021, quando o atual presidente, José Maria Neves, de
centro-esquerda, venceu as eleições após uma década de governo do MPD, partido
de centro-direita.
5. Não possui rios
nem fontes de água doce, mas abriga um vulcão ativo
Com clima extremamente
seco, Cabo Verde não possui rios, lagos ou fontes significativas de água doce.
Toda a água potável
distribuída às residências vem de usinas de dessalinização.
As chuvas são escassas e
as secas, frequentes, podendo durar anos, o que afeta a agricultura e já
provocou crises alimentares no passado.
As ilhas, formadas por
atividade vulcânica, apresentam paisagens áridas e acidentadas.
Algumas são planas e
cobertas por dunas, como Sal, Boa Vista e Maio. Outras se destacam pelos
penhascos e relevos montanhosos, como Santo Antão e São Nicolau.
O ponto mais alto do
país é o Pico do Fogo, com 2.829 metros de altitude.
Trata-se do único vulcão
ativo do arquipélago.
Sua erupção mais
recente, a mais longa em dois séculos e meio, ocorreu entre novembro de 2014 e
fevereiro de 2015.
Ela destruiu vilarejos
inteiros, obrigou a evacuação de cerca de mil pessoas e provocou prejuízos
superiores a US$ 50 milhões.
6. Possui gêneros
musicais próprios: a morna de Cesária Évora e o funaná
A música faz parte da
vida cotidiana em Cabo Verde e está presente tanto em festas populares quanto
em celebrações familiares.
O gênero mais
representativo é a morna, reconhecida pela UNESCO em 2019 como Patrimônio
Cultural Imaterial da Humanidade.
Com ritmo lento e tom
melancólico, a morna expressa a saudade — da terra natal ou de pessoas queridas
—, especialmente entre os cabo-verdianos que vivem no exterior.
Sua instrumentação
inclui violão, cavaquinho, violino e percussão leve.
A grande embaixadora da
morna foi a cantora Cesária Évora (1941-2011), que levou o gênero aos
principais palcos do mundo.
O outro grande gênero
musical de Cabo Verde é o funaná, caracterizado por um ritmo rápido e dançante,
marcado pelo acordeão e pelo ferrinho.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwyd82yy36yo. Acesso em 27/06/2028 (adaptado).
7. História
O arquipélago de Cabo
Verde terá sido descoberto no ano de 1460 por navegadores italianos e
portugueses. Santiago foi a ilha mais favorável para a ocupação e assim o
povoamento começa ali em 1462.
Dada a sua posição
estratégica, nas rotas que ligavam entre si a Europa, a África e o Brasil, as
ilhas serviram de entreposto comercial e de aprovisionamento, com particular
destaque no tráfego de escravos. Cedo, o arquipélago tornou-se num centro de
concentração e dispersão de homens, plantas e animais.
Com a abolição do
comércio de escravos e a constante deterioração das condições climáticas, Cabo
Verde entrou em decadência e passou a viver com base numa economia pobre, de
subsistência.
Europeus livres e
escravos da costa africana fundiram-se num só povo, o cabo-verdiano, com uma
forma de estar e viver muito própria e o crioulo emergiu como idioma da
comunidade maioritariamente mestiça.
Em 1956, Amílcar Cabral
criou o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC),
lutando contra o colonialismo e iniciando uma marcha para a independência. A 19
de Dezembro de 1974 foi assinado um acordo entre o PAIGC e Portugal, instaurando-se
um governo de transição em Cabo Verde. Este mesmo Governo preparou as eleições
para uma Assembleia Nacional Popular que em 5 de julho de 1975 proclamou a
independência.
A demarcação cultural em
relação a Portugal e a divulgação de ideias nacionalistas conduziram à
independência do arquipélago em julho de 1975.
Em 1991, na sequência
das primeiras eleições multipartidárias realizadas no país, foi instituída uma
democracia parlamentar com todas as instituições de uma democracia moderna.
Hoje Cabo verde é um país com estabilidade e paz sociais, pelo que goza de crédito
junto de governos, empresas e instituições financeiras internacionais.
Disponível em: https://www.governo.cv/o-arquipelago/historia/. Acesso em 27/06/2028.
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