Na época, o Quênia
possuía uma população majoritariamente excluída do sistema bancário
tradicional. Abrir uma conta era caro, burocrático e muitas vezes impossível
para moradores de áreas rurais. O M-Pesa surgiu para resolver esse problema
permitindo que usuários depositassem dinheiro em agentes credenciados e
realizassem transferências por meio de mensagens de celular. O sucesso foi
imediato. Em poucos anos, o sistema tornou-se parte da infraestrutura econômica
do país, sendo utilizado para pagamentos de salários, compras no comércio,
envio de remessas familiares e até operações de crédito.
Hoje, segundo dados da
própria Safaricom e reportagens da agência Reuters, o M-Pesa conta com mais de
35 milhões de usuários ativos apenas no Quênia, em uma população de
aproximadamente 55 milhões de habitantes. Estimativas frequentemente citadas
por pesquisadores e organismos internacionais indicam que cerca de 90% dos
adultos quenianos utilizam algum serviço de dinheiro móvel, tornando o país
líder mundial nesse segmento.
O sucesso, entretanto,
trouxe controvérsias. Economistas e autoridades regulatórias passaram a
discutir o enorme poder de mercado acumulado pela Safaricom, responsável por
uma parcela significativa das telecomunicações e dos pagamentos digitais do
país. Também surgiram preocupações relacionadas à privacidade dos usuários, à
proteção de dados e ao aumento de fraudes digitais. Mesmo assim, poucos
especialistas contestam o papel transformador desempenhado pelo M-Pesa na
economia queniana.
A influência do M-Pesa
ultrapassou rapidamente as fronteiras do Quênia. Após o sucesso inicial, a
Safaricom e sua parceira britânica Vodafone iniciaram a expansão do serviço
para outros mercados africanos e asiáticos. O sistema foi implementado em
países como Tanzânia, Moçambique, República Democrática do Congo, Lesoto, Gana
e Egito, além de experiências em regiões fora da África.
Se o Quênia se tornou
símbolo da inclusão financeira por meio do celular, a Nigéria desenvolveu o
sistema que mais se aproxima tecnicamente do Pix brasileiro. Trata-se do NIBSS
Instant Payment (NIP), criado em 2011 pela Nigeria Inter-Bank Settlement System,
entidade responsável pela infraestrutura de compensação bancária do país.
Diferentemente do M-Pesa, que nasceu em uma operadora de telefonia, o NIP foi
concebido como uma rede que conecta bancos, fintechs e instituições financeiras
em tempo real.
Dados divulgados pela
NIBSS mostram que, somente em 2024, o sistema processou aproximadamente 10,5
bilhões de transações, movimentando cerca de 1,07 quatrilhão de nairas, o que
equivale a aproximadamente 700 bilhões de dólares. O crescimento reflete o esforço
do Banco Central da Nigéria para reduzir o uso de dinheiro em espécie e
acelerar a digitalização dos pagamentos em uma das maiores economias africanas.
Assim como ocorreu no
Brasil após a popularização do Pix, a expansão dos pagamentos instantâneos na
Nigéria foi acompanhada pelo aumento de golpes e fraudes eletrônicas. O debate
regulatório passou a envolver questões como segurança cibernética, proteção ao
consumidor e a competição entre bancos tradicionais e fintechs. Apesar desses
desafios, o sistema é considerado um dos mais avançados do continente e uma
referência para outros países africanos que buscam modernizar suas
infraestruturas financeiras.
Outra experiência
relevante é a da Etiópia, que lançou em 2021 o Telebirr, plataforma criada pela
estatal Ethio Telecom. O projeto surgiu em um contexto de reformas econômicas e
abertura gradual do mercado de telecomunicações. Em apenas alguns anos, o Telebirr
alcançou mais de 50 milhões de usuários, número impressionante para um país
cuja população gira em torno de 120 milhões de habitantes. Segundo informações
divulgadas pela Ethio Telecom e reportadas pela Reuters, a plataforma já
movimentou trilhões de birr em transações desde sua criação.
O crescimento acelerado
do Telebirr tem sido visto pelo governo etíope como instrumento fundamental
para ampliar a inclusão financeira e estimular a digitalização da economia. No
entanto, também existem críticas relacionadas à forte participação estatal na
operação do sistema, às dificuldades de integração com instituições privadas e
aos riscos decorrentes da concentração de informações financeiras em uma
plataforma controlada pelo governo.
As experiências do
Quênia, da Nigéria e da Etiópia mostram que não existe um único modelo de
sucesso para os pagamentos digitais. O M-Pesa revolucionou a inclusão
financeira ao transformar o telefone celular em uma agência bancária portátil.
O NIBSS Instant Payment criou uma infraestrutura nacional de pagamentos
instantâneos comparável às mais modernas do mundo. O Telebirr busca repetir
esse processo em uma das maiores populações da África.
Embora o Pix tenha se
tornado um caso de sucesso internacional, a história dos pagamentos digitais
mostra que algumas das experiências mais ousadas e transformadoras surgiram no
continente africano. Muito antes de os brasileiros começarem a utilizar chaves
Pix para transferir dinheiro em segundos, milhões de africanos já utilizavam
seus celulares para realizar operações financeiras que mudariam profundamente a
relação entre tecnologia, inclusão social e desenvolvimento econômico.
Disponível em: https://www.metropoles.com/blog-do-noblat/antes-do-pix-as-experiencias-africanas-de-pagamentos-digitais#goog_rewarded.
Acesso em: 08/06/2026.
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