CURIOSIDADES DA EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DO MUNICÍPIO DE GOVERNADOR MANGABEIRA

 

Em 14 de março de 1962, a então Vila de Cabeças conseguiu sua emancipação política da cidade de Muritiba, passando a se chamar município de Governador Mangabeira. Vejamos algumas curiosidades que marcaram o processo desse fato histórico, que completa hoje 60 anos.

Discursos dos vereadores Malaquias Ferreira, Antônio da Mota Júnior e Manoel Machado Pedreira na Câmara de Vereadores de Muritiba a favor da emancipação da Vila de Cabeças (24/08/1961)

“Franqueada a palavra usou-a o edil Malaquias de Cerqueira Ferreira, que disse confiar aos seus nobres colegas o seu apoio unânime a tão justa aspiração de um povo que luta pela sua independência. Franqueada a palavra, usou-a o nobre edil Antônio Pereira da Mota Júnior, com o mesmo ideal de independência solicitava aos seus ilustres colegas e representantes do povo a sua votação por unanimidade para a libertação política da Vila de Cabeças juntamente com Geolândia que levará o nome do grande ilustre Baiano Otávio Mangabeira. Franqueada a palavra, usou-a o nobre edil Manoel Machado Pedreira, declarando ao plenário: ele um dos batalhadores para elevar pelos méritos o distrito de Cabeças a município junto com Geolândia confirmando a aprovação pela Assembleia Legislativa do Estado” (Livro de Ata da Câmara de Vereadores de Muritiba. Livro 05 – 1954-1962, p. 189-191).

Distrito de Geolândia se nega fazer parte do município de Governador Mangabeira

“Vimos mui respeitosamente protestar contra a inclusão do nosso Distrito como parte integrante do novo município, em que pese a honra do insigne nome escolhido. Reconhecemos a justa e natural pretensão do povo de Cabeças. Não criamos obstáculos as aspirações do nosso progressista irmão distrital na luta pela vitória de sua almejada autonomia. Contudo o povo de Geolândia pela unanimidade de seus habitantes e eleitores prefere a sua continuação como parcela do município de Muritiba. Dela nasceu, com ela morrerá. Esta é a nossa vontade” (Livro de Ata da Câmara de Vereadores de Muritiba. Livro 05 – 1954-1962, p. 188-189).

Deputados autor e relator na Assembleia Legislativa da leia que criou o município de Governador Mangabeira

Autor – Deputado Heraldo Guerra, filho da cidade de Cruz das Almas.

Relatora – Deputada Ana Oliveira (lei N.º 1.639 de 14 de março de 1962).

Os limites territoriais do munícipio de Governador Mangabeira

“O Governador do Estado da Bahia faço saber que a Assembleia Legislativa decreta e eu sanciono a seguinte lei:       

Artigo 1.º - Fica criado o município de Governador Mangabeira, desmembrado do de Muritiba, com os seguintes limites:

Com o Município de Conceição da Feira: começa na foz do riacho dos Brejos no rio Paraguaçu e pelo talvegue deste abaixo até o riacho do saco.

Com o município de Cachoeira: começa na foz do riacho do Saco no rio Paraguaçu e pelo talvegue deste abaixo até a foz do rio das Léguas.

Com o Município de Muritiba: começa no rio Paraguaçu na foz do rio das Léguas, sobe por este até sua nascente: daí em reta a nascente do riacho do Cobocó; daí em reta ao Centro da Lagoa dos Palames; daí em reta ao centro da Lagoa da Taparoroca; daí em reta ao centro da Lagoa do Jacarezinho; daí em reta ao centro da Lagoa do Carpina; e finalmente em reta a foz do riacho dos Brejos no rio Paraguaçu”(Diário Oficial do Estado de 15 de março de 1962 - Arquivo da Câmara de Vereadores de Governador Mangabeira).

O CECI e a Emancipação Política

“Prestando significativa homenagem ao dia da Bahia, 2 de julho, a Vila de Cabeças, realizou manifestações cívicas sendo fundado solenemente o Clube Esportivo Cultural e Independente (CECI), cuja diretoria administrativa é a seguinte: Presidente: Agnaldo Viana Pereira; Vice-Presidente: João P. da Silva; 1.º Secretario: Orlando O. da Rocha; 2.º Secretario: Ernando Oliveira; 1.º Tesoureiro: Manoel Nunes Machado; 2.º Tesoureiro: José Edvaldo Pereira; Orador: Alfredo Gesteira; Diretor de Esporte: Eraldo O. Cerqueira; Diretora Cultural e Artística: Iracema F. Ferreira.  

No discurso de cerimônia como parte do movimento da emancipação política e administrativa de Cabeças, falou diversos oradores, dentre eles o Doutor Pedro Cone, que ressaltou o imperativo de autonomia daquele Distrito, diante o progresso cultural, econômico e social, reinante como justificativa da campanha pela auto determinação” (Jornal Correio de São Félix, ano 28, N.º 1348, 8 de julho de 1961. Localizado no Arquivo Público de São Félix).

Um novo nome para a cidade: Três Palmeiras, Betânia, Altinopólis ou Governador Mangabeira?

Quatro nomes foram sugeridos: Três Palmeiras – como forma de homenagear as palmeiras imperiais que existiam em frente à Igreja Matriz, hoje restam apenas duas, pois o raio matou a outra; Betânia – em função da cidade bíblica localizada na Judéia, influência de alguns religiosos que participaram do movimento da emancipação; Altinópolis – em homenagem a João Altino da Fonseca; Governador Mangabeira – homenagem ao ex-governador da Bahia Otávio Mangabeira. Os dois primeiros nomes não tiveram muita aceitação, o debate se concentrou entre Altinópolis e Governador Mangabeira, com forte preferência para este último, através da sugestão do representante comercial Enoque Nunes Fonseca, como cita Agnaldo Viana Pereira em seu depoimento:

“O senhor Enoque, filho daqui da terra, era viajante – vendedor de mercadorias. Chegou à loja de Antônio Martins para ele escolher os panos para comprar e ali era ponto de encontro para as grandes conversas. Então ele disse: eu soube que vocês tão querendo passar isso aqui a cidade? Que nome vocês vão dar a isso aqui? Eu respondi: tem gente que quer que chame Betânia, outros três Palmeiras, outras João Altino. Agora sabe o nome que vocês devem dar aqui? Otávio Mangabeira, para prestar uma homenagem ao maior homem deste Estado, que morreu no ano passado”. (Depoimento. PEREIRA, Agnaldo Viana, 2003).

Governador Mangabeira: novo nome da cidade, uma homenagem a Otávio Mangabeira 

Otávio Mangabeira nasceu em Salvador a 27 de agosto de 1886, casou-se com Éster Pinho, com quem teve dois filhos: Otávio Mangabeira Filho e Edila Mangabeira Unger. Em 1908 foi eleito vereador da cidade de Salvador e até a sua morte em 29 de novembro de 1960, conseguiu exercer os cargos de Deputado Federal (7 vezes), Ministro das Relações Exteriores do governo de Washington Luís, governador do Estado da Bahia e Senador. Experimentou o exílio duas vezes: durante a Revolução de 1930 e no Estado Novo, pois era forte opositor de Getúlio Vargas, chegando a ser líder da UDN (União Democrática Nacional), partido que se configurou como maior oposição ao governo getulista. 

Em 1947 o engenheiro Otávio Mangabeira, foi eleito governador da Bahia com 211.121 votos pela coligação UDN-PSD, contra 92.629 votos do candidato do PTB, Medeiros Netos. Durante a campanha teve o apoio de diversos partidos, dentre eles o PCB:

As primeiras eleições para prefeito do novo município                                          

No cenário municipal formou-se a Coligação Progressista Popular (CPP) constituída pelos partidos UDN e PTB, tendo como candidato Agnaldo Viana e pelo Partido Social Democrático (PSD) - Malaquias Ferreira. Agnaldo Viana, ganhou em todas as 4 urnas (3 na sede e uma em Quixabeira), com aproximadamente 60% dos votos.

“Os resultados da eleição de 7 de outubro no recém criado município de Governador Mangabeira desmembrado de Muritiba, são os seguintes:  para prefeito – Agnaldo Viana 456, Malaquias Ferreira 311. Dessa forma, Governador Mangabeira, elegeu o seu primeiro prefeito municipal, o Sr. Agnaldo Viana” (Jornal Correio de São Felix – Ano XXIX, N.º 1319, 13 de outubro de 1962, p. 02. Material concedido pelo Senhor Antônio Pimentel Pereira).

Quem foi Agnaldo Viana Pereira (Primeiro Prefeito de Governador Mangabeira)

Nasceu em Nazaré das Farinhas, em 09 de maio de 1928, sendo seus pais João Alexandre Pereira Candido e Cândida Viana Pereira. Aos 16 anos ingressou na Marinha, já em 1956, através de concurso público se tornou coletor de impostos na atual cidade de Jaguaripe. Em 1959 passou exercer essa função na então Vila das Cabeças, quando se envolveu no processo de emancipação política da Vila, que em 1962 se transformou em município de Governador Mangabeira, do qual o senhor Agnaldo foi o primeiro prefeito (1963-1967), retornando a exercer essa função nos anos de 1973 a 1977. Tinha uma visão política progressista, inclinada para uma ideologia de esquerda, ao ponto de ser procurado pelos militares para ser preso durante o Golpe de 1964.

Como prefeito, realizou diversas obras, a exemplo da construção de prédios escolares (Queimadas, Mangabeira e Quixabeira), as estradas de Aldeia e do Riacho das Pedras, implantação a Associação de Proteção a Maternidade e a Infância e abastecimento de água, porém foi na área da educação o principal feito realizado pelo professor Agnaldo, ou seja, a instalação do Ginásio Otávio Mangabeira (1964), do qual foi diretor e professor, sendo mantida pela CNEC – Campanha Nacional de Escolas da Comunidade. Anos depois, a escola passou a se chamar Centro Educacional Cenecista Otávio Mangabeira (CECOM). Vale mencionar, que essa unidade de ensino foi responsável pela formação educacional de muitos mangabeirenses, através de um modelo de ensino de qualidade, pautado nos princípios humanistas.

Agnaldo Viana Pereira, era casado com a professora Isabel Freire Pimentel Pereira, com que teve seis filhos (Agnaldo Filho, Rita, Antônio, Maria das Graças, Cândida Maria e Isaldo). Faleceu deixando um grande legado, em especial a contribuição para emancipação política do nosso município e para a educação de milhares de mangabeirenses, enfatizando que hoje já existem duas escolas com seu nome: Centro Educacional Professor Agnaldo Viana Pereira (CEPAVP), localizado na comunidade de Quixabeira e o Colégio Viana, situado na sede do município.

Por: Luís Carlos Borges da Silva (Professor Borges)

Referência

SILVA, Luis Carlos Borges da. A Vila e o Coronel – Poder Local na Vila de Cabeças- 1930-1962. Monografia de pós-graduação, Santo Antônio de Jesus, UNEB, 2004.

Foto (discurso de posse o primeiro prefeito, Agnaldo Viana Pereira) – Publicação no Facebook de Antônio Pimentel 

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1 Comentários

Unknown disse…
História maravilhosa 👏👏👏 minha cidade queria completou 60 anos