Em 1994, o brasileiro Milton Santos (1926-2001) foi laureado com o prêmio internacional Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia. Até hoje, ele é o único pesquisador latino-americano a obter tal reconhecimento.
Esta é uma amostra da
relevância global do geógrafo Milton Almeida dos Santos, um dos maiores
intelectuais do século 20.
Negro e neto de um
escravizado, o baiano de Brotas de Macaúbas nasceu há 100 anos — lembrados em 3
de maio deste ano — e se tornou figura fundamental no entendimento do Brasil e
do mundo
globalizado.
Um dos editores do
livro Milton Santos: A Pioneer in Critical Geography from the Global
South ("Milton Santos: um Pioneiro do Sul Global em Geografia
Crítica", em tradução livre), o geógrafo Lucas Melgaço, professor na Vrije
Universiteit Brussel (VUB), situa as contribuições do brasileiro como
"essenciais para a geografia" — e que vão "além dela".
"Embora bastante
disciplinar, no sentido de que ele se preocupava em repensar o que era a
geografia, seu objeto e o trabalho do geógrafo, ele conseguiu ultrapassar os
limites da disciplina, tornando-se uma referência para várias ciências sociais",
contextualiza Melgaço.
"Ele deixou vários
legados. Acredito que a principal contribuição de Milton Santos para as
ciências sociais, no Brasil e no mundo, foi a construção de um método, um
conjunto de conceitos e teorias coerentes, que se complementam e se transformam
em ferramentas poderosas para compreender o mundo contemporâneo",
acrescenta.
"Ele não criou
apenas neologismos, algo comum na academia hoje,
muitas vezes ligado ao ego dos pesquisadores buscando crédito por ideias que
outros já trabalharam, mas revisitou termos existentes ou criou novos, de uma
forma que eles dialogam entre si."
Milton Santos se
destacou por seus estudos a respeito da urbanização no Terceiro Mundo e pelas
pesquisas a respeito da globalização. Ele também criou uma proposta teórica de
regionalização do país em quatro regiões, batizadas de "Quatro
Brasis".
Levando em consideração
as diferenças de infra-estrutura e o suporte a redes de informações,
mercadorias, capitais e pessoas entre os Estados, ele propôs uma visão sobre o
Brasil considerando a região amazônica, a região nordeste, a região
centro-oeste e a região concentrada.
Pela sua definição, a
região amazônica conteria os Estados do Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Pará
e Amapá — conjunto de unidades com pouca densidade demográfica e escassos
centros urbanos.
A concentrada seria a
área que englobaria os Estados do Sul e do Sudeste brasileiros, centro
tecnológico do Brasil, com urbanização densa e intenso desenvolvimento
científico e comercial.
O nordeste de Milton
Santos é muito parecido com a região oficialmente chamada de Nordeste,
compreendendo Zona da Mata, Agreste, Sertão e Meio-Norte.
Seria uma área
dependente do turismo — no litoral —, com indústrias sobretudo na Zona da Mata
e uma base subdesenvolvida agropecuarista no interior.
Por fim, o centro-oeste
de tal divisão abrange Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e
Distrito Federal, uma região voltada para a agropecuária mas com
desenvolvimento tecnológico comparável à região concentrada.
"Essa divisão
proposta por ele do Brasil mostra não só a base física, mas as regiões como
palco de uma série de relações e conflitos, com suas diferenças não só nas
geografias física e humana, mas na própria relação entre estados, elites e
poder econômico, impactando nas pessoas que ali vivem", pontua o o geólogo
Marco Moraes, autor do livro Planeta Hostil.
Biografia
Santos nasceu na Chapada
Diamantina. Tantos seus pais como seus avós maternos eram professores primários
— e foi com eles que o garoto aprendeu a ler e a escrever. Seu avô paterno
havia sido escravizado.
Quando entrou para o
internato do Instituto Baiano de Ensino, aos 10 anos, tomou gosto pela
geografia, influenciado por um professor. Cursou direito na Universidade
Federal da Bahia — graduou-se em 1948. Durante a faculdade, militou em grupos
estudantis de esquerda.
Formado em direito,
prestou concurso para professor de geografia. Acabou indo embora para Ilhéus,
onde deu aulas no colégio municipal. Lá trabalharia como jornalista para o
jornal A Tarde.
Desta passagem nasceria
seu livro Zona do Cacau.
Mais tarde, Santos se
mudaria para Salvador, onde se tornou professor na Universidade Católica em
1956. Foi convidado a fazer seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, na
França — concluído em 1958.
Sua carreira ascendia no
início dos anos 1960. Tornou-se livre-docente na Universidade Federal da Bahia
e, como editor do jornal A Tarde, viajou a Cuba na comitiva do então presidente
Jânio Quadros (1917-1992).
A convite do governo
estadual da Bahia, tornou-se presidente da Comissão de Planejamento Econômico.
O golpe militar de 1964,
contudo, interrompeu sua trajetória.
Santos foi preso pelo
regime e, em seguida, exilou-se na França. Trabalhou na Universidade de
Toulouse e, depois, em Sorbonne.
Em 1971 trocou Paris por
Toronto, no Canadá. Ele havia aceitado a proposta para se tornar professor na
principal universidade de lá.
Em seguida, tornou-se
pesquisador no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. Aí
nasceu sua amizade com o famoso sociólogo americano Noam Chomsky.
Também foi nessa época
que Santos preparou sua obra mais importante, O Espaço Dividido,
que seria publicada em 1979.
O geógrafo trabalhou
ainda na Venezuela, em missão da ONU, e no Peru, na Universidade de Lima.
Ainda moraria dois anos
na Tanzânia, onde criou o curso de pós-graduação em geografia na Universidade
de Dar es Salaam.
Antes de voltar ao
Brasil ainda passaria novamente pela Venezuela e pelos EUA — com uma temporada
na Universidade Columbia, em Nova York.
No retorno ao país, já
na segunda metade dos anos 1970, Milton Santos trabalhou como consultor do
governo estadual de São Paulo e na Empresa Paulista de Planejamento
Metropolitano (Emplasa).
Por alguns anos,
lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1984, foi contratado
pela Universidade de São Paulo, onde seguiria até o fim da vida — mesmo após
ter se aposentado, em 1997.
Para o sociólogo Paulo
Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo
(FESPSP), Milton Santos se tornou um autor fundamental na geografia porque
"ele reviu o conceito de globalização", percebendo como o fenômeno,
operado "pelo modelo neoliberal", produz desigualdades entre centro e
periferia.
"Ele desejou uma
globalização mais humanizada, pensando nas periferias e em como um processo de
acumulação capitalista poderia contribuir para a maior distribuição de
renda", diz Ramirez.
"É um autor
lapidar, fundamental em todo o mundo, para podermos entender as contradições do
processo de globalização", afirma Ramirez.
Melgaço argumenta que o
pensamento de Santos "permanece relevante para entender o presente".
"De forma mais
concreta, talvez a sua concepção de que o espaço geográfico não é apenas o
palco das ações humanas, mas um conjunto indissociável de sistemas de objetos e
sistemas de ações seja um de seus principais legados", explica o professor.
"Grande parte de
sua teoria gira em torno dessa ideia central, principalmente na última fase de
sua vida acadêmica. Também é altamente relevante sua visão de que a geografia
funciona como uma filosofia das técnicas. Esse conceito, por vezes abstrato e
complexo, é fundamental para entender o período atual, incluindo as
perversidades da globalização, as desigualdades técnicas, as opacidades dos
territórios, as contrarracionalidades e as inventividades dos espaços que ele
chamava de hegemonizados."
Para Melgaço, há um
otimismo na obra de Santos. Não era ingênuo, mas "muitas vezes
provocador", às vezes "até um pouco ácido". "Ele não tinha
medo de causar desconforto ou de fazer as pessoas pensarem", diz.
"Isso porque sua
teoria frequentemente convida à ação, não necessariamente militante, mas uma
ação que desafia estruturas. Acho que esse foi a origem de seu otimismo, já que
ele via possibilidades de mudanças, muitas vezes vindas de lugares marginalizados,
dos de baixo, do sul global. Ele inclusive fala da globalização como um
conjunto de possibilidades", afirma Melgaço.
Professor na
Universidade Estadual do Maranhão (Uema), o geógrafo Cristiano Nunes Alves
ressalta que a "potência e a força" da obra de Milton Santos estão no
fato de que suas ideias são "aplicáveis".
"Ele nos traz um
conjunto de ferramentas teóricas e metodológicas que efetivamente podem ser
aplicadas na análise dos territórios, na análise espacial", afirma.
"Sua obra tem um
fundo filosófico muito claro e presente, mas, ao mesmo tempo, não está apartada
da concretude", define Alves. O geógrafo destaca o papel de Santos ao
situar a informação como força que move os territórios.
Negritude
A questão negra, se não
foi central em seu trabalho, permeava suas preocupações de maneira constante.
"Embora ele não
tenha teorizado no sentido amplo sobre a questão de raça, sua perspectiva de
homem negro está em todo o seu trabalho", argumenta Alves.
"Ele dá ferramentas
para pensar e para ler a formação social brasileira com o elemento racial como
estruturante de nossa história territorial."
"Quando ele traz à
tona situações das populações pobres e das periferias, ele chama a atenção para
os subalternos. Sabemos quem são os subalternos: as mulheres, os indígenas e os
negros", ressalta Alves.
"Ele, por várias
vezes, refletiu sobre a questão racial e, sobretudo, sobre o fato de ser um
intelectual negro no Brasil, numa universidade elitista e pouco diversa. Mas a
questão racial não foi central na sua elaboração teórica", diz Melgaço. "Ele
sempre buscava ver a questão racial dentro de uma estrutura mais ampla e
complexa."
O professor lembra que
Santos era favorável às cotas, embora enfatizasse que só elas não bastavam —
era preciso que fossem acompanhadas de iniciativas que dessem aos negros
devidas condições de sucesso acadêmico. "E isso tinha a ver com
mobilidade, comida, lazer, descanso e tudo o mais", explica.
"Ele dizia que não
era um especialista na questão negra, mas que a questão negra era a sua
história", pontua Melgaço. "Há relatos dele, mas principalmente dos
seus colegas, das inúmeras vezes que o racismo o impediu de acessar cargos e
posições dentro e fora da academia."
Essa postura muitas
vezes fazia de Santos uma pessoa percebida de forma ambígua pelos ativistas de
seu tempo. "Por vezes, era criticado por, na visão de alguns, ser
demasiadamente isento ou tangencial no assunto", diz Melgaço.
"Mas, na minha
opinião, acho que era uma visão um pouco simplista do que realmente pensava
Milton Santos. Para mim, parecia que ele se preocupava com transformações
estruturais e que a questão negra fosse parte de mudanças mais profundas."
"Ele tinha bastante
consciência sobre o papel de um intelectual negro no mundo acadêmico. Viveu na
pele o racismo da sociedade. E, obviamente, tinha uma percepção muito mais
claras sobre essa relações, trazendo suas contribuições sobre como enxergar e
fazer as políticas públicas que visam a fortalecer os direitos humanos,
direitos sociais e as próprias políticas", acredita Ramirez.
No mundo
O geólogo Moraes comenta
que Milton Santos deveria "ser muito mais celebrado e reconhecido no
Brasil".
"Não só por sua
história, de um negro de origem humilde que ganhou o principal prêmio da
geografia, mas pela contribuição incrível de seu trabalho", afirma.
"Sua compreensão de
espaço geográfico não como substrato inerte para atividade humana, mas como
coisa dinâmica que influencia e é influenciada pela atividade humana, é
essencial", diz Moraes. "Permite analisar a geografia como interação
permanente e contínua."
"Ele analisou as
relações e a configuração geográfica a partir das periferias. Tanto das
desigualdades sociais e regionais dentro do Brasil como das periferias do
mundo", analisa Moraes.
"Olhar a geografia
não do ponto de vista eurocêntrico é uma contribuição importante. E ele fez
isso enquanto intelectual negro."
"Ele criticou a
globalização. Nisso foi visionário. Desmistificou o fenômeno, de coisa boa que
integraria o mundo, mostrando que há muitos excluídos do processo,
prejudicados", explica Moraes.
Por outro lado, Santos
enxergou possibilidades para o fenômeno. "Se nos unirmos e encararmos a
globalização de outra forma, ela pode ser uma coisa boa, inclusive uma forma de
reação às elites dominantes."
"A obra de Milton
Santos tem como principal legado o entendimento do espaço geográfico. Com os
seus estudos, ao teorizar o espaço como um sistema de objetos e ações, a
geografia começa a se debruçar também sobre as atividades humanas e as relações
econômicas, deixando de se fixar majoritariamente no estudo da paisagem e
aumentando sua interdisciplinaridade", contextualiza o relações públicas
Breno Costa, estudioso da obra de Santos e pesquisador na Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais.
Segundo ele, no sistema
de Santos, os objetos e as ações humanas estão interligados na formação das
cidades e regiões. "Portanto, seus trabalhos criaram uma escola de
pensamento bastante complexa e rica de conceitos", aponta.
"Ele se esforçou em
entender, sobretudo, os países subdesenvolvidos e as formas de urbanização
precárias", diz Costa. "Foi um crítico incansável do fenômeno da
globalização."
Para o geógrafo, o
mecanismo age como "um motor de desigualdades", tendo um impacto
perverso para o países do Sul Global. "Entender isso tem um impacto muito
grande na escolha do papel que o Brasil deve ter em um sistema mundial de
produção e consumo", afirma.
Há uma redescoberta da
obra de Santos no exterior, sobretudo no mundo anglófono. Nesse cenário, o
trabalho de Melgaço é fator de destaque.
Em 2017, em parceria com
o acadêmico canadense Tim Clarke, ele lançou a tradução em inglês do
livro Por Uma Outra Globalização, do geógrafo brasileiro.
No mesmo ano, foi
publicada uma coletânea em inglês, de artigos sobre o trabalho de Santos.
De lá para cá, outras
obras do geógrafo também ganharam versões em inglês, como A Natureza do
Espaço e Por Uma Geografia Nova.
Os estudos de Santos
seguem atuais. "Ajuda a entender os problemas contemporâneos", diz
Costa. Ele faz um exercício observando o que acontece hoje com as grandes
empresas de tecnologia. Segundo o pesquisador, o Vale do Silício acaba servindo
com "um centro produtor de tensões, intencionalidades e ideologias,
espalhando seu modo de pensar por todo o planeta".
"Nesse caso, a
América Latina acaba se tornando mera consumidora desse conjunto de técnicas,
criando-se aqui uma psicosfera, uma forma de pensar e um conjunto de valores
que foram inoculados em nós por esses Cavalos de Troia", analisa ele, sob uma
perspectiva da teoria de Milton Santos.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cdxpz7p679zo.
Acesso em 05/05/2026

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