A intensidade da ação dos hackers nos Ćŗltimos dias, atacando sites do governo brasileiro e de governos estaduais e de polĆticos de destaque, a exemplo do senador paranaense Roberto RequiĆ£o, alĆ©m de ser uma atividade prejudicial, ainda que tenham, como algumas das que ocorreram e na ótica de seus autores, apenas o carĆ”ter de “brincadeiras” ou “diversĆ£o”, representam muito mais do que isto.
Considere-se que o Brasil nĆ£o Ć© o Ćŗnico paĆs em que esses ataques tĆŖm ocorrido. Nos Estados Unidos, jĆ” houve ataques atĆ© mais importantes, inclusive a órgĆ£os como a AgĆŖncia Central de InteligĆŖncia (CIA) e ao FBI. O secretĆ”rio de Defesa do governo de Barack Obama saiu de seus cuidados para anunciar que a administração americana tomarĆ” medidas para garantir a seguranƧa de seus sistemas de informĆ”tica. E disse isso nĆ£o apenas por estar solidĆ”rio com a CIA e o FBI, mas com razƵes próprias, pois os hackers jĆ” haviam executado tambĆ©m um ataque ao sistema do PentĆ”gono, embora, segundo a versĆ£o oficial, sem atingir os bancos de informaƧƵes sensĆveis (ou mais sensĆveis?).
Esses ataques sĆ£o perigosos em si mesmos, pelos danos de diversos tipos que podem causar. No limite, talvez possam atĆ© desencadear guerras. Mas eles representam tambĆ©m uma ameaƧa Ć liberdade na rede mundial de computadores, uma ferramenta que, em princĆpio, poderia e deveria ser usada para ampliar a liberdade de informação, de expressĆ£o e a própria liberdade polĆtica, como ocorreu recentemente na TunĆsia e no Egito, paĆses por onde se iniciou a Primavera Ćrabe, ainda em curso.
Ć que na medida em que fazem ataques apenas “por diversĆ£o” ou para se sentirem poderosos e mostrarem seu poder, os hackers nĆ£o somente tornam indispensĆ”vel ou inevitĆ”vel a aprovação de legislação – nos diversos paĆses isoladamente e talvez atĆ© mediante uma convenção internacional que abrangeria certos aspectos dessas aƧƵes clandestinas sobre os quais os governos consigam chegar a um consenso – disciplinadora e punitiva.
Para que esse tipo de legislação seja efetiva, serĆ£o indispensĆ”veis (e se dirĆ” que estĆ£o justificadas) medidas restritivas que atualmente ainda sĆ£o amplamente rejeitadas, aumentando controles, monitoramento, espionagem oficial na Internet e a redução progressiva da liberdade na rede, numa velocidade que certamente iria variar de paĆs para paĆs, mas acabaria colocando a rede sob estrito controle oficial.
NĆ£o sou otimista quanto Ć preservação da liberdade na rede. Creio que seu destino final serĆ” um rĆgido controle dos governos sobre ela, pois, sendo poderoso instrumento de poder, os governos, a longo prazo, nĆ£o vĆ£o resistir Ć tentação de colocĆ”-lo sob seu controle praticamente absoluto. O risco desses ataques intensivos de hackers que vĆŖm ocorrendo Ć© o de acelerar e justificar a criação dos instrumentos legislativos e tecnológicos de controle, vale dizer, de redução da liberdade.
VÔrios governos jÔ estão em luta aberta contra a liberdade na rede e os ataques do tipo dos que ocorreram nos Estados Unidos ou que ocorrem agora no Brasil servirão somente para reduzir a resistência a medidas restritivas da liberdade na rede.
Fonte"pilĆtica livre"

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