segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Serra do Aporá - Recôncavo baiano


 
Por: Jânio Roque Barros de Castro.

No Brasil não temos montanhas na verdadeira acepção da palavra. As projeções abruptas e pontiagudas que correspondem aos dobramentos modernos, como a Cordilheira dos Andes, inexistem no extenso território brasileiro, que, do ponto de vista das unidades geológicas, apresentam bacias sedimentares e escudos cristalinos. Chamamos de serras as cristas residuais escarpadas, agrupadas ou não, arredondadas ou recortadas, que destoam no campo visual do observador mesmo a distância. Vistas de longe parecem ser azuis.

Observadas de perto, nota-se que sua cor pode variar sazonalmente: diferentes tons de verde no período de chuvas, entremeados pelas cores acizentadas dos afloramentos rochosos ou dos solos, que podem apresentar tons de amarelados a depender da composição ou tipologia (a exemplo dos latossolos das áreas tropicais).

No caso específico da Serra do Aporá, destacada nessa foto, a primeira quinzena do mês de dezembro é final de primavera, portanto é período de estiagem e a vegetação está seca. Partindo-se do topo dessa imponente forma de relevo, aqui usada como referente geográfico, pode-se ver, olhando no sentido leste (em direção a cidade de Cruz das Almas), que a vegetação está mais verde. Ao voltar nosso campo visual no sentido oeste (na direção da cidade de Cabaceiras do Paraguaçu), nota-se que a vegetação vai se tornando mais seca e esparsa.

Trata-se portanto de um área de interface fitogográfica que se esboça visualmente. Ao lado da serra passa uma estrada vicinal que acessa um um povoado, que integra a área territorial de Cabaceiras, chamado de Tupiaçu, na qual se nota claramente os elementos paisagísticos que caracterizam uma área de caatinga: cactáceas em conjunto, solos pedregosos, estiagem sazonal mais severa.

Nesse conjunto paisagístico nota-se um outro elemento destoante, que também pode ser visto claramente do topo da serra: o rio Paraguaçu, que nasce na Chapada Diamantina, região central da Bahia, atravessa parte do semiárido baiano e deságua na Baía de Todos os Santos, transitando por uma área de climas tropical sub-úmido e úmido do Recôncavo baiano. O espelho d’água se projeta visualmente sobretudo por causa do barramento de Pedra do Cavalo. Avista-se a área urbana de Cruz das Almas, uma importante cidade do Recôncavo baiano.

No dia 8 de dezembro, data na qual os católicos prestam homenagens a Nossa Senhora da Conceição em vários municípios nordestinos, tradicionalmente, dezenas de pessoas sobem em procissão a Serra do Aporá, na zona rural de Cabaceiras no Paraguaçu, na região do Recôncavo baiano. São pessoas de diferentes idades e com diferentes níveis de fé. Há aqueles/aquelas que consideram essa subida uma prática devocional. No entanto, muitos vão apenas pelo lazer, por curiosidade ou porque consideram a escalada ao aclive por um trajeto sinuoso e pedregoso uma prática mais esportiva e lúdica que uma manifestação de natureza religiosa.

No topo edificou-se uma pequena igreja e um cruzeiro nos quais os crentes católicos acendem velas e oram, buscando assim uma ligação com a dimensão espiritual. De onde teria vindo essa tradição? Muitas práticas religiosas tem um mito fundador ou ato inicial relacionado a especificidades locais, todavia, em muitas dessas situações destaca-se as influências de outros contextos que tem origem em trechos bíblicos e se constituiriam em práticas de reatualização, como destacou o historiador Mircea Eliade, em algumas obras clássicas no século passado. A manifestação religiosa pode ter uma origem e uma dinâmica ligada tanto a questões locais/regionais, quanto a uma dimensão bem mais alargada, ou até mesmo as duas situações. Todos os anos eu subo a serra para fotografar, conversar, observar, aprender.
Jânio Roque Barros de Castro - Professor Titular da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. Doutor em Geografia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA.
Foto 1 - extraída da internet. Foto 2 - arquivo do professor Jânio Roque.

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