“Luís Felipe,
jovem de 19 anos do Recôncavo Baiano, passou em 5º lugar no curso de Geografia
da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), natural de Governador
Mangabeira (BA), ele utilizou minhas produções como repertório na redação do
ENEM 2025.
Fiquei
profundamente feliz com sua aprovação. É bonito, e necessário ver que minhas
produções têm contribuído para a educação e para a construção de caminhos
possíveis do conhecimento. Que sua trajetória seja linda” (Djamila Ribeiro).
Nesse contexto,
“também parabenizo a Luís Felipe por essa relevante conquista em sua vida, algo
que demonstra a capacidade, inteligência e empenho dos estudantes da escola
pública, bem como a importância das política públicas de inclusão e afirmação.
Ainda, parabenizo aos seus familiares pelo apoio e incentivo na sua trajetória,
além de todos professores da sua caminhada educacional. Que venha o curso de
licenciatura em Geografia pela UEFS” salientou o professor Borges.
A seguir consta
um texto em que, Luis Felipe realizar uma descrição acerca de
características da sua vida pessoal, bem como da sua trajetória educacional e o
apoio familiar para a concretização dessa significa conquista.
Origem
Meu nome é Luís
Felipe, tenho 19 anos, sou oriundo da zona rural, do Povoado de Furtado I,
nas proximidades do distrito de Quixabeira, no município de Governador
Mangabeira (BA), no coração do Recôncavo Baiano. Sou um jovem negro, fruto da
escola pública, de baixa renda, trabalhador rural, cuja trajetória educacional
foi construída com esforço diário, persistência silenciosa e uma fé inabalável
no poder transformador da educação. Filho de trabalhadora rural, mãe solo,
mulher negra e guerreira, que sempre carregou consigo a força do trabalho, da
resistência e da dignidade.
Caminhada Escolar
Minha caminhada
escolar teve início, ainda na infância, na Escola Helenita Gomes da Silva, no
ensino infantil. Posteriormente, cursei do 2º ao 5º ano do ensino fundamental
na Escola Municipal José Raimundo Gomes da Silva, e do 6º ao 9º ano no Centro
Educacional Professor Agnaldo Viana Pereira (CEPAVP). No ensino médio, fiz uma
escolha decisiva e corajosa: ingressei na Rede Federal de Ensino, no Instituto
Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – IF Baiano, Campus Governador
Mangabeira, onde concluí o Curso Técnico em Agroindústria.
Por cada
instituição por onde passei, deixei passos firmes e recolhi aprendizados
profundos. Cada escola, cada sala de aula, cada professor e professora
contribuíram de maneira significativa para a formação do sujeito que hoje sou.
Faço aqui uma homenagem sincera e emocionada a todos os educadores e educadoras que cruzaram meu caminho, desde o maternal até o ensino médio. Vocês foram, e continuam sendo, fontes de inspiração, de afeto, de conhecimento e de esperança. O ensino que recebi foi primoroso, humano e transformador, impactando minha vida de forma decisiva e inesquecível.
A escolha pela Licenciatura em Geografia
Escolher a
Geografia é, para mim, um ato político, um ato de resistência. É assumir o
compromisso com a sociedade, formar-me como um professor crítico, consciente,
disposto a enfrentar desafios para formar cidadãos comprometidos, capazes de
transformar realidades. É acreditar que a educação salva, acolhe, emancipa e
toca vidas, assim como tocou a minha.
Ser geógrafo é
caminhar pelo continente africano da minha ancestralidade, é compreender que a
Geografia está em mim e eu estou nela. É percorrer o mundo em busca de
conhecimento, memória e justiça social. É honrar meu legado, levar adiante a
potência que carrego, ser reconhecido não por vaidade, mas por pertencimento. É
ser Brasil, Bahia, Recôncavo Baiano e mangabeirense, com muito orgulho.
Preparação para o
ENEM
Minha preparação
para o ENEM foi marcada por extrema dificuldade, disciplina rigorosa e profunda
perseverança. Estudar em casa, de forma totalmente autônoma, sem qualquer
suporte institucional, cursinho, acompanhamento pedagógico ou orientação direta
de professores, exigiu de mim não apenas esforço intelectual, mas também força
emocional e resistência psicológica.
Iniciei uma
preparação mais intensa a partir do mês de julho, criando, por conta própria,
estratégias para manter o foco e a constância. Meu estudo foi integralmente
autodidata: assistia a longas videoaulas gratuitas no YouTube, acompanhava
lives de cursinhos que disponibilizavam conteúdo aberto e resolvia, de forma
sistemática, questões de provas dos anos anteriores do ENEM. A redação foi um
eixo central da minha rotina, escrevi aproximadamente 40 redações, sempre
buscando aprimorar a argumentação, repertório sociocultural e domínio da norma
padrão da língua portuguesa.
Sem estrutura
adequada, organizei meus horários com o máximo de responsabilidade possível,
estabelecendo metas diárias e semanais, como a produção de redações, a
resolução de blocos de questões e o acompanhamento de conteúdos específicos.
Ainda assim, estudar sozinho, em casa, sendo estudante de baixa renda, é um
processo profundamente desafiador. Muitas vezes, o sentimento de desorientação,
o cansaço extremo e a vontade de desistir se fizeram presentes. A ausência de
suporte torna o caminho mais árduo: surgem dúvidas constantes sobre por onde
começar, como avançar e se o esforço realmente será suficiente.
Apesar disso,
escolhi perseverar. Mantive-me firme mesmo nos dias em que tudo parecia pesado,
cansativo e desmotivador. Busquei também preservar meu bem-estar, compreendendo
que o equilíbrio emocional é essencial: caminhadas, momentos de descanso e
pequenas pausas foram fundamentais para seguir adiante.
Todo esse
processo foi sustentado pelos conhecimentos adquiridos ao longo de 12 anos na
escola pública, com destaque para minha formação no IF Baiano, onde cursei o
ensino médio e aprofundei minha dedicação aos estudos, desenvolvendo foco,
autonomia e consciência do valor da educação.
Nos dias 9 e 16
de novembro, realizei a prova com o coração inteiro, consciente de que havia
feito o melhor dentro das condições que me foram possíveis. Houve medo,
insegurança e exaustão, sentimentos comuns a quem enfrenta uma prova dessa
magnitude sem preparação estruturada. Contudo, em 16 de janeiro de 2026, ao
receber o resultado, vivi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, o
resultado dos meus esforços. Em seguida, a aprovação que representou a
confirmação de que todo o meu esforço valeu a pena. Chorei de emoção, orgulho e
gratidão.
Essa conquista é
fruto de um processo solitário e extremamente difícil, mas também coletivo em
sua essência. Dedico esse resultado à minha família: à minha mãe, minha avó e
minha irmã, aos professores e professoras que marcaram minha trajetória, e às
amigas e pessoas que me apoiaram.
A educação
transformou minha história. Eu resisti, eu perseverei, e eu venci. Viva a
educação pública. Viva o povo nordestino. Viva o povo baiano. Viva o Recôncavo
Baiano. Viva o povo mangabeirense. Viva o povo brasileiro.
A REDAÇÃO DO ENEM
No ENEM 2025, enfrentei o tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, que se tornou um marco na minha trajetória. Na redação, dialoguei com a filósofa brasileira Djamila Ribeiro, citando sua frase potente e eterna:
“O primeiro passo
a ser tomado para solucionar uma questão é tirá-la da invisibilidade.”
Essa citação não
foi apenas um repertório: foi um espelho da minha própria história. Em um
comentário em uma publicação da filósofa, compartilhei que a havia citado. Sua
equipe respondeu com palavras de incentivo, dizendo que eu iria arrasar. E
arrasei. Obtive 920 pontos na redação do ENEM 2025.
Quando li o tema
da redação e comecei a escrever, algo em mim transbordou. As palavras vieram
carregadas de sentido, as emoções se impuseram, as mãos tremiam para despejar
no papel tudo o que pulsava dentro do peito. Ali, naquele espaço em branco,
estava mais do que um texto: estava meu destino, meu futuro.
“Perspectivas
acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, não foi apenas um tema, foi
um chamado. A certeza de que sentar, estudar, ouvir, registrar, insistir…tudo
havia valido a pena.
Escrever foi um
dos atos mais enriquecedores da minha vida. Me emocionei. E, a cada palavra,
surgia a imagem da minha rainha, minha matriarca, minha avó. A ela dedico esta
redação. A ela dedico esta nota, essa homenagem. Porque nela aprendi o valor do
tempo, da resistência e do amor que atravessa gerações. Esta conquista carrega
o meu nome e o nome dela também.
Uma nota não me
define, mas ela revela. Revela meu esforço, minha entrega, minha perseverança.
Revela o quanto lutei para chegar até aqui. Define oportunidades, abre
caminhos, anuncia conquistas. É prova viva de que a educação transforma, eleva
e salva.
O SISU
Com o passar dos dias, veio a aprovação no curso de Licenciatura em Geografia pelo SISU, na Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS. Compartilhei essa conquista novamente, com o coração em festa. Para minha surpresa, a equipe de Djamila entrou em contato comigo. Vivi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Em êxtase, sem acreditar, vi minha história ser acolhida, reconhecida e compartilhada por ela, que me parabenizou e me incentivou a seguir firme, lembrando que o futuro se constrói com passos resistentes e decisões corajosas.
Importância das
conquistas
Minha trajetória
é prova viva de que a educação transforma, de que resistir vale a pena, e de
que sonhos, quando sustentados pela coragem e pelo estudo, tornam-se realidade.
Estas conquistas são a síntese de uma trajetória inteira de luta, disciplina e fé. É o resultado de 12 anos de formação na escola pública, de vivências intensas nos caminhos da educação e da vida, de aprendizados que me moldaram por dentro e deixaram marcas profundas em quem eu sou.
Nada foi simples!
Foram noites em claro, manhãs exaustas, tardes silenciosas, dias inteiros de
renúncia, horas, minutos e segundos que exigiram persistência. Cada esforço
valeu a pena! Cada escolha pela educação foi recompensada com dignidade e
excelência! Depositei minha confiança no estudo, e ele respondeu com grandeza!
CONFESSO: não foi
fácil, e nunca será. O caminho das vitórias não se constrói com facilidades. O
fácil não me ilude, não me surpreende, não me transforma. Para quem carrega
obstáculos, a superação é diária, é luta e é exatamente ela que nos faz seguir.
EU SEGUI!
Hoje, mais do que
um número, celebro uma nova fase, uma nova história, uma nova conquista.
Como futuro
educador, compreendo que ser professor é um ato de resistência. É sonhar em
meio ao caos. É acreditar na educação mesmo quando ela é ferida, silenciada,
esquecida. É lutar todos os dias por dignidade, respeito e por um país mais
justo. A educação é o único caminho que realmente transforma, transforma o
indivíduo, transforma a comunidade, transforma o mundo. E eu, Luís Felipe,
escolhi caminhar por ele com o coração inteiro.
O curso de
licenciatura em Geografia não irá me preparar apenas para o ensino, ele me
formará para o compromisso. Ele me fortalecerá como sujeito político, como
agente de mudança, como alguém que acredita que o saber pode romper muros e
abrir portas.
Ser professor,
neste país, é resistir. É sonhar, mesmo quando tudo parece ruir. É acreditar
que a educação liberta, inspira e salva. Eu escolhi essa luta, e escolho todos
os dias, com amor, com coragem, com fé no que a educação pode fazer por cada
vida tocada por ela.
Sigo firme na
minha caminhada, com o coração cheio de esperança, gratidão e orgulho. Porque
ser professor não é apenas ensinar...É amar de um jeito que transforma.
Gratidão a
família
Fui criado por
três mulheres. Três forças. Três mundos. Três exemplos diários de resistência,
dignidade e amor incondicional. Foi entre mãos calejadas pelo trabalho, olhares
atentos e corações imensos que aprendi o verdadeiro significado de coragem.
Elas me ensinaram, sem discursos longos, que viver é lutar, que sonhar é um ato
de ousadia, e que desistir nunca foi uma opção.
Minha mãe, mulher
incansável, que fez do pouco um universo inteiro, que transformou sacrifícios
silenciosos em proteção, e o cansaço em abrigo. Cada renúncia sua ecoa hoje nas
minhas conquistas. Se sigo em frente, é porque carrego em mim a força dela, a fé
dela e o amor dela que nunca falharam.
Minha avó, raiz
profunda da minha história, memória viva, colo eterno, minha matriarca. Foi
nela que encontrei o sentido de pertencimento, a sabedoria que atravessa
gerações e o amor que não pede nada em troca. Os conselhos dela moldaram meu
caráter, a presença dela me ensinou a ser firme, sem perder a ternura.
Minha irmã,
companheira de caminhada, espelho e incentivo. Nela aprendi sobre apoio,
lealdade e afeto. Um olhar confiante, sempre me lembrou de quem eu sou, mesmo
quando eu duvidei. Ela caminhou comigo, mesmo quando o mundo parecia grande
demais.
Ser o homem que
sou hoje é reflexo direto de ter sido criado por essas mulheres maravilhosas.
Elas me ensinaram a respeitar, a sentir, a lutar e a acreditar. Ensinaram-me
que um homem de verdade não endurece o coração, mas fortalece a alma. Que ir em
busca dos sonhos exige coragem, mas também sensibilidade, empatia e humanidade.
Cada passo que
dou, carrego o nome delas. Cada vitória tem o cheiro do lar que construíram
para mim. Cada sonho que alcanço é, antes de tudo, uma homenagem à força
feminina que me formou.
Se hoje sigo
firme, estudando, resistindo e acreditando, é porque elas nunca soltaram minhas
mãos. Elas são minha origem, meu sustento e meu futuro. Tudo o que sou e tudo o
que ainda serei começa nas mulheres poderosas da minha vida.




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