domingo, 9 de setembro de 2018

Breve análise geográfica acerca da cidade de Feira de Santana

Por: Professor doutor Jânio Roque Barros de Castro /

Feira de Santana: segunda maior cidade do estado da Bahia e a maior do interior do Nordeste. Cidade polo, que encabeça uma região metropolitana.

Nesta foto, dois elementos se destacam no horizonte visual do observador: a massa líquida expressiva e os prédios altos. O primeiro elemento, de natureza fisiográfica, é uma formação lacustre periurbana cujo contraste com o estoque edificado enriquece o recorte paisagístico. Belas lagoas como essa não são vistas com muita frequência na área urbana de Feira de Santana, que, em muitos trechos, expressa uma aridez paisagística com falta de árvores e de espelhos d'água, cuja função, no seu conjunto, vai muito além da composição estética. Infelizmente várias lagoas desapareceram da área urbana e entorno, enquanto outras foram assoreadas ou soterradas para dar lugar a expansão urbana horizontal ditada pela especulação imobiliária. 

Ao acessar a cidade por uma das suas novas entradas, a Avenida Noide Cerqueira, que se constitui em uma "alça estendida" da Rodovia BR 324 e desemboca, através de uma viaduto que sobrepõe ao anel viário, na Avenida Getúlio Vargas, nota-se algumas formações lacustres situadas em alguns embaciamentos periurbanos entornados por gramíneas que contrastam com o conjunto edificado verticalizado ao fundo. O perigo, nesse caso, é a especulação ditada pelo capital imobiliário que pode comprometer esses elementos "naturais" da paisagem. Por isso que o planejamento territorial urbano deve está assentado claramente em conceitos estruturantes e consistentes como o de patrimônio ambiental e patrimônio cultural. Não basta zonear indicando áreas de interesse ambiental; tem que se criar mecanismos institucionais de proteção a esse patrimônio ambiental, daí a importância da participação crítica, ativista e questionadora das Universidades e dos movimentos sociais nos planos diretores urbanos. 

O outro elemento que destoa no recorte paisagístico em tela são os prédios que expressam o evidente processo de verticalização urbana da cidade que se intensificou nas últimas duas décadas, determinado, sobretudo, pela valorização do solo urbano em uma grande e estratégica cidade baiana, que atrai pessoas de diferentes regiões do estado pela dimensão da sua centralidade, assentada em uma polifuncionalidade. A cidade pode continuar crescendo sem precisar degradar suas riquezas ambientais e nem destruir com um “urbanismo de raspagem do território” as edificações históricas. Por isso que o planejamento urbano deve ser crítico, horizontal, amplo e participativo.

Vista panorâmica da cidade de Feira de Santana, a segunda maior cidade do território baiano. Trata-se de um importante pólo regional e de um estratégico entroncamento rodoviário que encabeça uma região metropolitana criada recentemente. O sítio urbano está assentado em uma área predominantemente plana e o um município está situado em uma área de interface fitogeogeográfica, daí a expressão portal do Sertão, que é recorrentemente veiculada na mídia. Feira, expressão usada de forma resumida pelos seus moradores e visitantes mais frequentes, também é chamada de “princesa do Sertão” (a rainha seria Salvador, a capital). 

A rodovia duplicada que aparece adentrando a área urbana é a BR 324, que liga Salvador a Feira de Santana e, na área urbana, conecta-se com sobreposição rodoviária a Avenida Presidente Dutra que é uma importante via estruturante de fluxo que cruza perpendicularmente duas outras vias estruturantes expressivas: a Avenida João Durval Carneiro e Avenida Maria Quitéria; ambas interseccionam um anel viário parcialmente duplicado que foi construído para evitar a circulação de veículos pesados pela área intra-urbana. Nota-se claramente o franco processo de verticalização da área urbana, que se intensificou notadamente nos dois últimos decênios com valorização expressiva do solo urbano, determinada pela especulação imobiliária e pela lógica de reprodução do capital em uma cidade que concentra uma expressiva diversidade de serviços e de oferta de bens, além de se constituir em um pólo industrial. 
As alças do viaduto, vistas nessa foto, ligam a BR 324 ao anel viário que, até meados da década de 1980, bordejava a área urbana, todavia, a dinâmica socioeconômica estimulou o crescimento horizontal e esse anel viário passou, em muitos trechos, a ser entornado por pelo conjunto edificado da cidade. Quando adentra-se a cidade pela nova entrada, a Avenida Noide Cerqueira, pode-se avistar claramente algumas formações lacustres entornadas por uma vegetação típica de lagoas, bordejando a área urbana. 
Espero que a população, as Universidades, as associações e os diferentes segmentos ativistas da sociedade estejam atentos para que essas lagoas não sejam drenadas para construção de condomínios fechados e prédios; pois trata-se de uma área de expressiva valorização imobiliária. Caso isso acontecesse, seria uma agressão a um dos elementos mais importantes do patrimônio ambiental do município. Como a foto revela, a questão ambiental deveria ser mais valorizada; a arborização da cidade é irregular. Essa é Feira de Santana, a “princesinha do Sertão”, uma importante cidade da região Nordeste do Brasil.

Jânio Roque Barros de Castor
Graduado e especialista em Geografia pela Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS, Mestre em Geografia e Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia – UFBA. Professor Titular – UNEB. Membro da Rede de Pesquisadores de Cidades Médias e Pequenas Cidades da Bahia e vice - líder do Grupo de Pesquisa: Recôncavo: território, cultura, memória e ambiente. 

Sobre as fotos: oriundas da internet, autor desconhecido. Caso algum(a) internauta(a) saiba, por gentileza, nos informar a fonte.
Compartilhe : :

0 comentários:

Postar um comentário

 

Professor Borges Todos os direitos reservados © 2017 Ulisses D